Alma beijada

Quando ele, no dia que o conheci, me deu seu sorrisinho de canto de boca que ainda hoje, um ano depois, ainda acho uma glória, eu já estava pronta. E já pertencia de forma total aquelas mãos, já me sabia sem saída e sem juízo. É claro que todo mundo adora o safado. Eu também, eu também, eu também. Mais que tudo. Mais que todos.
Ele chegou na minha vida um dia depois do meu aniversário de dezoito anos e eu ainda era mais menina do que o que pode-se chamar de mulher feita. Entre livros e músicas e sapatilhas passei sem notar pelos rapazes cheio de espinhas e más-intenções e mãos-bobas. Também pelos espelhos que não os que me mostravam pés em ponta e disciplina. Então não pude entender o porquê da sua chegada em mim, assim, como um predador. Eu presa.
Foi na boca dele que minha beleza se revelou. Que me soube e me entendi mulher. Mas romantizo, entenda... como disse antes, livros demais... Tentarei ordenar pensamentos e palavras para que saibas porque estou aqui e o que quero.
Eu estava saindo da aula de ballet, em roupas largas e passos rápidos quando um carro parou ao meu lado. Hoje sei que ele tem trinta e oito anos. Na época me pareceu um deus. Um presente atrasado. Mas na hora exata. Pensei em destino e em poesia.
Ele não falou nada e abriu a porta do carro para mim. Eu nem por um minuto hesitei. Queria sentar ao seu lado, mesmo que passageiramente. Hoje mesmo sabendo muito, também o faria. Novamente. Sem hesitar. Ele perguntou onde eu morava e eu balbuciei que não queria ir para casa. Foi aí que ele riu. E eu quase morri. Perguntou para onde eu queria ir, meu nome. E eu muda. Ele perguntou minha idade e eu me apressei em contar dos dezoito. Ele riu novamente e ligou o carro. Acelerou e alguns minutos depois, tentei me concentrar na música torcendo que ela disfarçasse o som do meu coração aos pulos. Era aquela música de Chico, sabe qual é?

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada

Ele perguntou se eu já tinha sido beijada daquele jeito e eu só fiz balançar a cabeça em uma negativa tímida. Ele abaixou o volume, desligou o carro e me encarou. Virei o rosto e vi que estávamos numa praia. Não tive medo algum. Então ele, com uma mão terna me virou o rosto e me obrigou a olhar dentro dos seus olhos e com voz clara e doce me perguntou.
- Você quer que eu te beije assim?
Não lembro de ter falado, mas sei que meus olhos devem ter gritado que sim. Porque ele não demorou para ainda me encarando, delicadamente abaixar a alça da minha blusa e muito, muito devagar, me mordiscar o ombro. Senti meus pelos da nuca eriçarem, minha calcinha molhar quando ele começou a ir com leves beijinhos, como flores ou como penas subindo dos ombros para o pescoço do pescoço para a orelha da orelha para o rosto. Boca. Ele passou sua língua bem devagar na minha boca que se abriu num convite. Ele me beijou durante muito, muito tempo, até que eu mesma tirei a blusa e coloquei sua mão sobre um dos meus seios.
Com a ponta dos dedos ele circundou levemente meu seio que arrepiava. Eu achei que nada podia ser melhor, até que ele abaixou e enquanto uma das suas mãos insistia nessa carícia, sua língua iniciou outra doce tortura. Arfei e gemi. Ele parou o que estava fazendo, abriu a porta do carro e saiu. Eu cobri os seios com as mãos, mas não tive nenhum pudor em alguns segundos depois ir atrás dele. Já era noite. Ele estava de costas, contemplando sei lá o que. Tirei o resto das roupas sem que ele visse. Me aproximei e toquei de leve em seus ombros. Ele não virou. Beijei suas costas. Ele permaneceu onde estava. Então abracei-o, encostei meu corpo no dele numa tentativa inútil de me fundir naquele homem para sempre.
Ele virou, me olhou nos olhos e nos deitamos no chão. Ele tirou as próprias roupas e novamente me beijou. Abriu minhas pernas e alí se demorou muito tempo. Foi quando ele enfiou levemente um dedo em mim enquanto sua língua já estava brincando com meu grelo há algum tempo, que gozei pela primeira vez.
Ele perguntou se eu sabia seu nome.
- Você é o meu amor.- Eu respondi.
Vejo que você continua não entendendo o porque d´eu te contar tudo isso. Uma desconhecida. Mas está excitado. É o que me interessa. Serei clara, então. Depois desta primeira vez, estamos sempre juntos, eu estou sempre disponível, basta um telefonema, um aceno. Mas sei que ele tem outras. Muitas outras. As pessoas tem pena de mim. Eu mesma, por vezes, tenho muita pena de mim mesma.
E hoje eu escolhi você. Porque sim, eu amo esse homem de sorriso de canto de boca. E pertenço de forma total aquelas mãos, me sei sem saída e sem juízo. Mas quero ao menos tentar recuperar alguma resquício da minha alma de volta. E acho que só tem esse jeito. Então, você que trepar comigo hoje?

Vida fácil

Com um sorriso cansado de reconhecimento, ela cumprimenta o bêbado que mora em papelões na frente do seu prédio antigo. Para um pouco ao seu lado e aceita um gole de uma garrafa qualquer oferecida com mãos sujas e boca sem dentes. Faz uma careta, cospe e recebe um gargalhada em troca.

Continua andando.

Arrasta a bolsa de alças compidas pelo chão e num das mãos de unhas vermelho-sangue descascadas nas pontas, carrega seus tamancos de saltos altíssimos. A boca já está já sem batom, os olhos borrados. Também vermelhos. Injetados.

Aquela seria a hora dos pássaros começarem a cantar na sua cidade. Mas não naquele lugar cinza de fumaça e de ódio.

Chuta uma porta e começa lentamente a subir o primeiro dos cinco lances de escada que vão dar no seu quitinete mofado. Muquifo. Cospe de novo.
- É um quarto-sala mobiliado, a descarga não está funcionando, use o balde. Mas não pode trazer macho para cá, viu, puta? Aqui nos damos aos respeito.

Relembra fragmentos da noite e vomita num canto qualquer lá pelo primeiro andar. Canta alto para incomodar vizinhos e esquecer. Não esquece.

Pra se viver do amor
Há que esquecer o amor
Há que se amar
Sem amar
Sem prazer
E com despertador
- como um funcionário

Aquel dia acordara num lugar estranho, com o celular tocando, sempre programado para fazê-la despertar em horror. Três da tarde. Havia sangue no meio das suas pernas.
Procura sua calcinha, se limpa. Preta. Sorte. Ao vesti-la, enxerga os dois homens que roncam por perto. Reconhece os filhos-da-puta dos policiais de sempre. Porcos. Estavam de folga e queriam se divertir. Porcos. Tenta não acordá-los e procura a bolsa. Abre. Porcos. Perdera o dinheiro da noite. Mas ainda estou viva, suspira.
Quando sai do banheiro, onde tentara se recompor na frente de um espelho cinza, o mais alto deles a empurra de encontro e com a cara na parede. Ela sente o cheiro de sexo e sujeira quando ele coloca o pau para fora, depois de segurar as suas mãos. Sente uma mordida nas suas costas. Forte demais. Porco. Enquanto ele a enraba, ela morde o lábio para evitar gritar de dor. Não que acordar o outro filho da puta. Ia ser bem pior, ela sabia.
Ele goza rápido, suando e dá um tapa na sua bunda com uma piscadela de olho. Ela séria, o encara. Ele bate-lhe na cara.
- Sorri para mim, vadia!
Ela sorri. Consegue ir embora.

Há que penar no amor
Pra se ganhar no amor
Há que apanhar
E sangrar
E suar
Como um trabalhador

Em casa, joga a calcinha no lixo. Porcos. Banho, esfrega corpo e vê as manchas roxas nas pernas e na barriga. Merda. Está atrasada e não consegue esconder com a base barata a marca dos dentes tatuadas nas costas. Merda.
Sai correndo na chuva. A saia curta e top amarelo são substituídos por uma outra pouca roupa qualquer. Tira-a na frente de homens que bebem e gritam palavrões, enquanto se esfrega num mastro de metal frio. De costas até o chão. Arreganha as pernas na frente de um gordo senhor, pega nos peitos. Passa a língua pelos lábios e faz um pequeno gesto de quem vai arranhar alguém.
Sai do palco e senta na mesa do tal gordo. Primeiro conhaque, segundo, terceiro. Fácil, pensa. Vão para o quarto. Ele tira da carteira um saquinho. Cheiram juntos. Ele bate nela com força. Na bunda. Na cara. Cospe. Arranha.
Ela grita para ver se ele consegue finalmente gozar. Tempo demais, e ela já está molhada de um suor viscoso. De ambos.
- Me fode garanhão, me come gostoso, me fode, caralho, que eu vou gozar. Eu tô quase gozando, porra.
- Agora você vai gozar, piranha.- Ele diz.
Ele sente um objeto pontiagudo no seu ventre. Vê gotas de sangue surgirem. Está anestesiada demais. Já deixou de sentir àquela altura da noite.
Horas depois, limpa sangue e esperma com um pedaço de papel higiênico e se despede com um aceno do gordo.
Paga sua parte pelo uso do quarto, calça as sandálias sentada num banco alto, enquanto bebe um outro conhaque no balcão. O homem cansado que lhe serve, tenta puxar conversa.
- Eu tentei te avisar para não pegar aquele. Ele já machucou sério muita menina por aqui. Não ia ser uma coisa boa no seu primeiro dia.
- Tô acostumada com a dor, querido. – ela responde.
Sai para a noite fria. Cansada. Pega no ventre e sobe um pouco mais a saia para esconder as cicatrizes. Mais.
Tantas já, pensa e suspira.

Ai, o amor
Jamais foi um sonho
O amor, eu bem sei
Já provei
E é um veneno medonho

Tão lindo seu homem. Seu escolhido. Tinha emcompridado seus olhos de menina de interior, quando aparecera. Pai viajando, mãe foi junto. Chama ele para casa. Quer saber mais dele. Mais de sí.
Ele pega na sua perna, mal chegam. Levanta sua blusa, arrepia o bico dos seus peitos pequenos com a língua. Abaixa e lambe mais. Ela entende e geme. Então é isso, pensa.
Ela se deixar levar pro quarto, ele afasta suas pelúcias. Eles deitam.
Ela suspira. Ela geme mais quando ele enfia um dedo e continua em círculos a buscá-la.
Fita aqueles olhos que ama para sempre, abre mais um pouco as pernas e despede-se de sua virgindade.
Grita quando ele arremete dentro dela, mas sente que algo mais está para acontecer, algo que vai levá-la para além daquela dor persistente. Então chegam, inundando-a toda, ondas que quase a afogam. Ele grita o nome dele. Pede mais. Ele dá.
Espreguiça sonolenta e escuta os pássaros daquela cidade no fim do mundo anunciando manhã. Com uma mão procura amor ao lado. Sente o colchão vazio. Pega em papel. Dinheiro. E uma breve nota escrita numa página branca da bíblia que guardava na gaveta.

Espero ki xegui. Quando falamos esses dias você num falô preço. Num devo mas paçar pela cidade.

É por isso que se há de entender
Que o amor não é um ócio
E compreender
Que o amor não é um vício
O amor é sacrifício
O amor é sacerdócio
Amar
É iluminar a dor
- como um missionário

Um carro para ao seu lado. Ela abaixa na janela e vê um casal dentro. O homem velho e feio, uma mulher na casa dos cinquenta de olhos baixos e mãos que remexem em seu colo. Combinam um preço.
- Entra- diz o homem- Você vai pro banco de trás, resmunga para a mulher cabisbaixa. Ambas obedecem.
Ele vai pegando na sua coxa, enquanto rí alto.
- Trinta anos de casamento, ela me flagrou na cama com outra. Quis sair de casa, vê se pode? Eu disse, agora tú vai ver, mulher, é eu comendo outra de verdade. Gargalha mais um pouco.
Depois. Roncos altos. A mulher está sentada numa cadeira, olhos cheios de lágrimas. Ela levanta e chega perto, limpa seu rosto e alisa seus cabelos. Abre um a um os botões daquela blusa discreta e pega delicadamente em seus seios. Ela arfa e a olha nos olhos. Se beijam.
Com cuidado ela continua beijando. Cada parte daquele corpo. Usa a língua, usa as mãos, usa o próprio corpo, esfrega seu sexo no da mulher. Se abre. Se abrem.
Ela sente o gozo da outra. Do silêncio que se segue, emerge uma voz tímida.
- Nunca tinha sentido isso antes. Obrigada.
Com um sorriso cansado de reconhecimento, ela cumprimenta o bêbado que mora em papelões na frente do seu prédio antigo. Para um pouco ao seu lado e aceita um gole de uma garrafa qualquer oferecida com mãos sujas e boca sem dentes. Faz uma careta, cospe e recebe um gargalhada em troca.

Continua andando.